
Quem vê não entende por que os grafiteiros pintam para em seguida apagar o desenho. Não, eles não estão desperdiçando tinta. Ao contrário, é tudo muito bem planejado. O
Graffiti com Pipoca é um exemplo de que amigos unidos por boas ideias e disposição podem, sim, fazer a coisa acontecer pra valer.
Hip Hop
Tudo começou em 2005, quando o grafiteiro Bruno Macedo, o Chorão, foi convidado por Jerônimo Vilhena para participar do “família nacional”, projeto que estava produzindo no Centro Cultural de São Paulo e que unia rap com graffiti – e é a essa combinação que chamamos de hip hop.
Jerônimo, que já era ligado ao universo do hip hop (participava do Instituto Voz), e fazia filmagens, contou para Chorão sua ideia de fazer animação com graffiti. O amigo se entusiasmou e desde então começaram a se encontrar com freqüência para madurar as ideias e dar início ao trabalho.
Para fazer parte dessa nova empreitada, Chorão convidou seu parceiro de spray Agner Rebouças. Os dois já organizavam workshops em comunidades carentes e pintavam também em panos e pelas ruas, sem a ajuda de nenhuma entidade. Agner topou na hora, mas dá o crédito pra Jerônimo “a alma do projeto é o Jerônimo. Ele é o cara que faz a produção, ele quem faz a articulação pro [sic] negocio acontecer.”
Com o projeto já em andamento, no final de 2005 resolveram inscrevê-lo no
VAI (Valorização de Iniciativas Culturais), programa da secretaria de cultura de São Paulo. A proposta foi aprovada, e em 2006 receberam um incentivo de R$ 17.000 para continuar dando as oficinas e produzir a primeira animação do grupo. Durante nove meses, o coletivo promoveu na PEF (antiga Febem da Imigrantes) oficinas de graffiti, vídeo e desenho animado para os meninos.
Bola Murcha
Mas o primeiro vídeo de destaque mesmo, só saiu no ano seguinte. Em 2007, ainda com o apoio do VAI, gravaram “O velho bola murcha”, que conta a história de um velho colecionador de bolas murchas que acaba fazendo amizade com crianças da vizinhança. O vídeo foi filmado na escola Almirante Ari Parreira, no bairro do Jabaquara, considera a pior escola da região. “Os estudantes não gostavam da escola. Quando a gente começou a grafitar, muitos perguntavam para que a gente fazia aquilo. Queriam entender porque a escola deles tinha sido escolhida.”, lembra Agner.
O Velho Bola Murcha ganhou o prêmio do Programa Aprendiz, promovido pela empresa COMGAS. Com o prêmio de R$ 3.500, o grupo comprou um retro-projetor e levou para a escola. Lá, exibira-no – muita gente não tinha visto ainda – além de outros curtas que não estavam no circuito comercial. O Bola Murcha ficou dois anos sendo exibido para os estudantes. Virou orgulho da molecada. “Hoje o pessoal vai tirar foto do muro. Todo mundo respeita, ninguém mexeu em nada até o ano passado” Só até o ano passado? Agner explica “a escola está passando por uma reforma, então tiveram que derrubar uma parte do muro. Não foi por parte dos alunos; a galera respeita.”
Paixão e profissão
Não foi só a paixão pelo graffiti que motivou o grupo a se empenhar no projeto. O objetivo era dominarem as técnicas de filmagem, produção e edição do vídeo para se tornarem profissionais do ramo. Com o dinheiro que receberam do VAI fizeram curso profissionalizante. Depois do primeiro, o grupo produziu outros vídeos para aperfeiçoarem a técnica (e colocar em prática o que tinham aprendido).
Funciona da seguinte maneira: para cada traço feito, uma foto. Se a parte que acabou de ser pintada vai ser animada, os artistas têm que pintar novamente para criar o outro quadro. São filmados todos estágios do trabalho, para depois ser editado a imagem dos grafiteiros e então animar o desenho e dar vida à história criada. Para fazer todos os desenhos, os grafiteiros não levam mais de um dia “se [o clima] estiver quente, seca mais rápido. Se estiver nublado, úmido, demora mais pra secar. Mas a média é de 5 a 6 horas.”, conta Agner.
Jerônimo, Teatro Mágico, MTV
Foi através de Jerônimo que o grupo foi convidado para produzir o videoclipe “O mérito e o monstro” da banda Teatro Mágico. O vídeo caiu tanto na graça da rapaziada que ficou um mês inteiro na parada dos tops da MTV.
Hoje, o Graffiti não recebe mais incentivo do VAI, mas continua fazendo, vez e outra, algum vídeo ou intervenção pelas ruas. No canal deles no You Tube você pode conhecer melhor o trabalho dessa galera:
http://www.youtube.com/user/graffiticompipoca